

Aleksander Laks lembra dos horrores e atrocidades cometidos no período nazista
Por Roberto Maleson
Era mais uma sexta-feira na cidade de Lodz, na Polônia. Aleksander Henryk Laks brincava na rua quando sua mãe o chamou para acompanhá-la enquanto comprava peixe. Na volta, o céu estava repleto de aviões alemães que voavam em direção a Varsóvia, capital do país, localizada a cerca de 120 quilômetros de Lodz. Era a invasão alemã. A data de 1º de setembro de 1939 marcou o início do que é considerado por muitos o maior genocídio da história: o Holocausto. O menino Aleksander viveu a adolescência na luta pela sobrevivência. E conseguiu. Hoje, aos 87 anos, ele conta como foram os anos de horrores vivenciados sob as ações nazistas. “Tudo o que conto, eu vivi na minha pele”, diz Aleksander.
No dia 2 de dezembro de 2014, o presidente da Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista palestrou no campus São Gonçalo do Instituto Federal do Rio de Janeiro. Ele explica que seu testemunho é para que nunca mais tais atrocidades voltem a assolar o mundo. “O nazismo foi o pior da humanidade.” Autor do livro O Sobrevivente, o polonês naturalizado brasileiro comoveu os presentes no auditório lotado contando sua história nos campos de concentração do Terceiro Reich.


O exército alemão não tardou a tomar a cidade natal de Aleksander. Com a invasão, a ideia até então abstrata de morte impactou o jovem. Ela logo se consolidou quando os nazistas cercaram a pior parte da cidade para formar o segundo maior gueto judeu da Polônia. Ainda que o gueto de Lodz comportasse, apertadas, 25 mil pessoas, lá foram postas mais de 160 mil. Por aquelas terras, vigorava a Lei de Nuremberg, cidade alemã onde aconteceu o congresso nazista, em 1935, que estabeleceu a perseguição aos judeus e a outras minorias. Os judeus maiores de 12 anos foram obrigados a usar, na frente e nas costas de suas roupas, uma estrela amarela de seis pontas com a palavra Jude — judeu, em alemão — grafada em preto.
Segundo Aleksander, no primeiro mês, foram cinco mil mortes. Os corpos ficavam espalhados pelas ruas. As doenças e a fome devastavam a população confinada nos guetos. “A fome é indescritível, se perde a noção de si próprio”, relata. A dieta consistia em um quilo de pão preto, que deveria durar seis dias, acrescido de sopa de legumes e uma água de cor escura. Os judeus deviam sobreviver com apenas 200 calorias por dia quando uma pessoa normal precisa ingerir 2 400. “Eu vivi cinco anos e meio com essa dieta de 1 kg de pão preto, que parecia ter lama dentro. Sobrevivi para estar aqui e alertar que isso jamais pode acontecer novamente.”
A Lei Nazista declarava ilegal a gravidez de mulheres judias. Ainda assim, ela nem sempre era respeitada. Em uma ação imposta pelos oficiais do Reich, todos os moradores do gueto deveriam se apresentar para uma seleção de “trabalhadores” a serem enviados à União Soviética. Um casal que havia desrespeitado o regime e tinha um filho recém-nascido pediu asilo à família Laks. Precisavam se esconder da chamada, ou corriam o risco de perder tudo. Os pais de Aleksander os acolheram.
O esconderijo precisava ser perfeito e ninguém podia emitir sequer um som, mas assim que os oficiais se aproximaram da casa, o bebê começou a chorar. Seu pranto incansável parecia ser o fim de todos. Cada tentativa de pará-lo era infrutífera. A qualquer momento a polícia poderia perceber a presença da criança e, consequentemente, dos outros escondidos. Em desespero, o recém-nascido foi coberto com lençois para abafar o barulho. Deu certo. Após a eternidade dos minutos que se seguiram, os oficiais nazistas passaram sem sequer desconfiar da família escondida, mas o alívio durou pouco. Tão pronto os lençóis foram retirados, todos perceberam que o pior tinha acontecido: o bebê morrera sufocado. Até hoje a imagem assombra Laks. “Enquanto Deus me der a faculdade de pensar, não me esquecerei dessa criança”.
Após um tempo, os alemães consentiram em fazer escolas no gueto. Pouco depois, um aviso de que todos os jovens deveriam comparecer à aula do dia seguinte preocupou o pai de Aleksander e o fez proibir a ida de seu filho. Jacob Laks, pai do menino, estava certo. Todos da escola foram enviados para o primeiro campo de extermínio: Chelmno, a cerca de 50 km de Lodz. Aleksander foi o único sobrevivente do colégio.


Em 1944, a fome fez com que a família Laks se entregasse aos nazistas. Todos estavam sendo deslocados para campos de concentração. O destino de Aleksander e seus pais foi Auschwitz. Na chegada, ele foi separado de sua mãe. Era a última vez que a veria. Pouco tempo depois, ela seria morta numa câmara de gás.
Os judeus foram obrigados a participar do que ficou conhecido como a “Marcha da Morte”, o deslocamento forçado de milhões deles entre os campos de concentração nazistas. Após pouco tempo, só restavam menos de 100 sobreviventes. Aleksander e seu pai resistiram bravamente. Após percorrerem boa parte do percurso, Jacob, cansado, pediu a seu filho: “Me prometa que se você sobreviver, nunca vai deixar que esqueçam o que fizeram conosco.” Aleksander prometeu. Em seguida, o pai disse que não aguentava mais e que iria sentar. Aleksander respondeu que não queria viver sem ele e que sentaria também. Vendo a situação, um amigo que estava na Marcha ajudou a carregar Jacob por três dias, quando ordenaram que entrassem em um vagão com destino a outro campo: Flossenbürg. Ali seria o fim para Jacob Laks.
Em Flossenbürg, existia um galpão usado como latrina. As pessoas entravam lá para fugir do relento devido ao frio intenso do lado de fora. Quando os nazistas achavam essas pessoas, as espancavam até a morte. “Um dia, eu vi pessoas correndo de lá e vi meu pai jogado no chão. Ele estava todo ensanguentado. Meu pai foi assassinado na latrina”, contou, emocionado. No dia seguinte, o corpo de Jacob foi jogado numa pira crematória. “Meu pai tinha 45 anos e não pôde sobreviver só porque era judeu.”


Logo em seguida, veio uma ordem de que nenhum prisioneiro poderia chegar vivo nas mãos dos Aliados, fazendo com que os prisioneiros fossem evacuados imediatamente. Os judeus foram postos num trem para serem afogados no lago de Constança. Mas, no caminho, o veículo foi bombardeado pelos Aliados e muitos dos passageiros morreram. O ataque tinha o intuito de salvar apenas os franceses que estavam nas mãos dos nazistas. Eles não se preocuparam em ajudar os judeus. “Fomos libertados pelos franceses, que deixaram a gente lá, como se fôssemos lixo.”
Aleksander, sentado no chão, pensou que este seria o seu último suspiro, pois estava morrendo. “Eu estava em paz comigo, não tinha fome, não tinha sede, não sentia frio.” O jovem de 17 anos pesava somente 28 kg. Uma caneca de leite dada por um desconhecido salvou sua vida. “Até hoje não sei quem é esse anjo.”
“Eu sobrevivi”, se orgulha Aleksander. “Eu estava predestinado a sobreviver.” Sem perspectivas para o futuro, o garoto perambulou pelas quatro zonas de ocupação na Alemanha do pós-guerra. Ele foi garoto de rua até a criação dos campos de refugiados. Lá, ficou durante dois anos até que foi morar nos Estados Unidos, uma vez que não queria mais ficar na Europa.
Quando os Laks saíram do gueto em direção a Auschwitz foi combinado que, caso fossem separados — eles não pensavam em morte — , o ponto de encontro seria na casa da tia de Aleksander, no Rio de Janeiro. Então, depois de toda a experiência traumática vivenciada nos campos de concentração, o jovem escreveu uma carta à tia contando tudo que passara. A família brasileira a recebeu e, de pronto, providenciou a passagem necessária para a ida de Aleksander ao Brasil.
“Foi amor à primeira vista: ao Brasil, ao Rio de Janeiro, ao povo brasileiro”, afirma Aleksander. Aqui, ele formou sua família e se apaixonou pelo seu novo país. “Hoje, sou brasileiro e gosto muito da minha pátria.” Por fim, ele dispara: “Somos uma raça só: a humana. Eu sou brasileiro, judeu e parte da humanidade.”
Matéria escrita por Roberto Maleson, ilustrada por João Brizzi e revisada e editada por Daniel Salgado.

